
No Brasil, em cada grupo de mil meninas com idade entre 15 e 19 anos, em média 68 engravidam. É o que diz o relatório conjunto lançado pela Organização Mundial da Saúde no dia 28 de fevereiro deste ano.
Os índices levaram em conta os nascimentos registrados entre os anos de 2010 e 2015. Os números colocam o país acima da médica Sul-Americana, que é de 66 adolescentes grávidas para cada mil. No mundo, de acordo com a OMS, a média é de 46 nascimentos para cada mil adolescentes.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a adolescência é a idade compreendida entre 10 e 19 anos, é uma época de muitas descobertas. O pico nos níveis hormonais, por exemplo, pode levar a inicialização precoce da vida sexual, que por vezes ocorre de formas desprotegidas, seja pela falta de informação, ou por informações errôneas ou mal aplicabilidade.

É importante salientar que a gravidez precoce é um problema de saúde pública, uma vez que causa riscos à saúde da mãe, do bebê e tem impacto socioeconômico, pois muitas das grávidas abandonam os estudos e apresentam maior dificuldade para conseguir emprego. A menina que passa pela experiência de uma gravidez na adolescência fica emocionalmente abalada, principalmente nos casos em que não existe apoio familiar ou, ainda, quando há rejeição por parte do pai da criança.
Devido a essa fragilidade emocional causada pela gravidez, muitas adolescentes até rejeitam o bebê após o nascimento. Mas, o problema vai além dos fatores psicológicos e econômicos.
A mulher grávida precocemente pode apresentar sérios problemas durante a gestação, inclusive risco de morte, podendo apresentar anemia, aborto natural, síndrome hellp, pré-eclâmpsia e eclâmpsia, risco de ruptura do colo do útero e depressão pós-parto.
De acordo com a OPAS, o risco de morte materna duplica quando se trata de adolescentes com menos de 15 anos em países com regiões baixa e média renda, como o Brasil.
| Recorte social
Em publicação no site das Nações Unidas, Clarissa Etienne, diretora da OPAS, disse que as taxas de fertilidade entre adolescentes afetam principalmente as populações que vivem em condições de vulnerabilidade. “A gravidez não apenas cria obstáculos para o desenvolvimento psicossocial das meninas, como se associa a resultados deficientes na saúde e um maior risco de morte materna. Além disso, seus filhos têm mais risco de ter uma saúde frágil e cair na pobreza”, acrescentou.
Segundo o relatório, em alguns países, as adolescentes sem escolaridade ou apenas com educação básica têm quatro vezes mais chances de ficarem grávidas, na comparação com adolescentes com Ensino Médio ou Superior. As meninas de famílias de renda inferior e as indígenas, particularmente nas áreas rurais, também têm maior probabilidade de gravidez precoce.
| Recomendações
Uma série de recomendações para reduzir a gravidez precoce foi apresentada no relatório, como o programa de prevenção dirigido a grupos em situação de maior vulnerabilidade, o aumento do acesso a métodos anticoncepcionais e o incentivo à educação sexual.
Além dos trabalhos de educação no nível individual, familiar e comunitário, ações para criar leis e normas também foram apontadas como estratégicas pelo relatório.
Uma delas é a proibição do casamento infantil e as uniões precoces antes os 18 anos. Em tramitação no Congresso, o projeto de lei 7774/2017 veda a prática do casamento infantil no Brasil.
Em entrevista à Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil, o autor do projeto, Helder Salomão (PT/ES) explicou que embora a lei brasileira estipule 18 anos como idade legal para união matrimonial e permita a anulação do casamento infantil, há muitas brechas na lei.
Se houver consentimento dos pais, por exemplo, as meninas podem se casar a partir dos 16 anos. “Podemos levar gerações para mudar tal realidade, mas é preciso haver uma legislação que vete esse tipo de prática, para que a sociedade contemporânea comece a pensar nisso”, disse Salomão.
Uma maneira segura de evitar a gravidez indesejada é conhecer os métodos contraceptivos e escolher aquele que melhor se adequa. Entre os mais eficazes estão:
Entre outros métodos de prevenção, pode-se destacar:
- Camisinha: é um protetor de látex que reveste o pênis durante a relação sexual, retendo o esperma ejaculado para que não tenha contato com a vagina. É o melhor método contraceptivo, pois, além de evitar a gravidez, também confere proteção contra doenças sexualmente transmissíveis (DST), como AIDS, sífilis, gonorreia e outras. A camisinha é distribuída gratuitamente nos postos de saúde do Brasil. Ainda assim, é aconselhável a adoção de outros métodos contraceptíveis no caso de a camisinha rasgar ou "estourar" durante o ato sexual.
- Pílula anticoncepcional: são pílulas compostas de hormônios sintéticos (estrógeno e progesterona), que devem ser ingeridas pelas mulheres todos os dias durante 21 dias por mês. É um dos métodos contraceptivos mais usados no mundo.
- Dispositivo intrauterino (DIU): é um dispositivo de metal e plástico que deve ser introduzido na vagina de modo a exercer o efeito anticonceptivo.
- Diafragma: trata-se de um dispositivo de borracha colocado no fundo da vagina, de forma que o colo do útero se feche, evitando a entrada de espermatozoides.
- Pílula do dia seguinte: é uma pílula de composição hormonal que deve ser utilizada somente em situações emergenciais ou acidentais (por exemplo, em caso de estupro ou rompimento da camisinha). Essa pílula impede a ovulação (se ainda não aconteceu) e evita que o embrião se implante na parede uterina. Precisa ser ingerida dentro de 72 horas, no máximo, após a relação sexual desprotegida, para que tenha efeito contraceptivo.
Entre outros métodos de prevenção, pode-se destacar:
- Investimento em políticas, programas e ações que promovam os direitos, a autonomia e o empoderamento de adolescentes e jovens, em especial meninas, em relação ao exercício de sua sexualidade e de sua vida reprodutiva, para que possam tomar decisões voluntárias, sem coerção e sem discriminação;
- Assegurar o acesso às ações e aos insumos de saúde sexual, tais como preservativos e contraceptivos, para que gravidezes não planejadas sejam evitadas.
| Apesar da informação, porque a Gravidez na Adolescência é recorrente?
Um dos principais problemas é o modo como a informação é passada. É preciso que o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde reforcem mais e levem para todas as escolas do país programas como o Saúde na Escola (PSE), que aproxima a assuntos da saúde do ambiente escolar.
Outro grande problema está no estimulo visual exacerbado, em horário nobre, de cenas contendo atos sexuais ou sexualização excessiva nas novelas, ou mesmo a reprodução de algumas músicas sexualmente apelativas, como é o caso do funk.
Uma outra grande estratégia é contar com o apoio das mídias e influenciadores do público jovem, como os YouTubers. Ou ainda, trazer uma campanha de conscientização entre os vídeos.
É papel da família e da escola esclarecer as dúvidas dos adolescentes no que diz respeito à sexualidade, sem preconceitos, tabus ou estigmas. É necessário desconstruir mitos, expor situações reais, informar e orientar os adolescentes para que eles tenham consciência de suas escolhas e não caiam na “armadilha” de uma gravidez precoce.
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